27.9.13

PAI FLORENTINO, 1957.

Foi o enterro de um pai-de-santo da linha de Oió. Um chefe de culto nagô, yorubano que se chamava PAI FLORENTINO. O cortejo foi oficiado por Mãe Apolinária e obedeceu a tradição africana. Batiam os tambores rituais e as bocas cantaram o "ateté" de despedida. No cruzamento das ruas paravam, o esquife descansava, os acompanhantes faziam roda e dançavam no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. De repente, retrocediam, dançando todos de costas e para trás.
Os tambores acompanharam até o momento final onde punhados de terra foram jogados sobre o caixão e todos cantaram: "Eia fôni bánã, ateté culaô. Eia fôni bánã, ateté culaô".

Foto: Leo Guerreiro
Reprodução Revista do Globo, 1957.

21.8.13

xangô

Xangô nasce do poder e morre em nome do poder. Rei absoluto, forte e imba tível. O seu prazer é o poder Xangô é o rei entre todos os Orixás. É um Orixá de fogo. Por sua origem real, Xangô é o Santo da Justiça, castigando com o raio. Ele é também conquistador; possui as três esposas: Oba a mais velha e menos amada; Oba a mais velha e menos amada; Oxum, que era casada com Oxossi e por quem Xangô se apaixona e faz com que ela o abandone; e Iansã. Esposa dedicada e forte guerreira, que precede o marido nas batalhas e, por ser dona do raio, deu o fogo a seu amado Xangô comandando as forças da natureza que se caracterizam pela violência: o trovão, o raio (o fogo sobrenatural do céu), atira pedras do céu.

Destacando-se pela sua valentia e lideran ça castiga mentirosos, infratores e ladrões. Por isso a morte pelo raio é considerada infame, assim como uma casa atingida por uma descarga elétrica é tida como marcada pela ira de Xangô. Xangô tem pavor da morte. Na África sob seus aspectos, histórico e divino.

A filha de Elempe, rei dos Tapás, que havia firmado uma aliança com Oranian. Xangô cresceu no país de sua mãe, indo instalar-se mais tarde, em Kòso (Kossô), onde os habitantes não o aceitaram pelo seu cará ter violento e imperioso; mas ele conseguiu, finalmente, impor-se por sua força. Em seguida, acompanhado pelo seu povo, dirigiu-se para Oyó, onde estabeleceu um bairro que recebeu o nome de Kossô.

Conservou, assim, seu título de Obá Kòso, que, com o passar do tempo, veio a fazer parte de seus oríkì. Xangô, no seu aspecto divino, permanece filho de Oranian, divinizado porém, tendo Yamase como mãe e três divindades como esposas: Oyá, Oxum e Obá. Xangô é o irmão mais jovem, não somente de Dadá-Ajaká como também de Obaluaiyè.

Entretanto, ao que parece, não são os vínculos de parentesco que permitem explicar a ligação entre ambos, mas sua origem co mum em Tapá, lugar onde Obaluaiyè seria mais antigo que Xangô , e, por deferência para com o mais ve lho, em certas cidades como Seketê e Ifanhim são sempre feitas oferendas a Obaluayiè na véspera da celebração das cerimônias para Xangô. Xangô, é viril e atrevido, violento e justiceiro; castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitores, razão do que de sobra, para ser denominado, deus da justiça. Os èdùn àrá (pedras de raio - na verdade, pedras neolíticas em forma de machado), são consideradas ema nações de Xangô, e são colocadas sobre um odó - pilão de madeira esculpida -, consagrado à Xangô. Seu símbolo é oxé - machado de duas lâminas - lembra o símbolo de Zeus em Creta.

Esse oxé parece ser a estili zação de um personagem carregando o fogo sobre a cabeça; este fogo é, ao memso tempo, o duplo macha do e lembra, de certa forma, a cerimônia chamada ajere, na qual os iniciados de Xangô devem carregar na cabeça uma vasilha cheia de furos, dentro da qual queima um fogo vivo; e, em uma outra cerimônia, chama da àkàrà, durante a qual engolem mechas de algodão embebidas em azeite de dendê em combustão. É uma referência à lenda, segundo a qual Xangô tinha o poder de escarrar fogo graças a um talismã que ele pedira à Oyá buscar no território bariba.
• Seu maior símbolo - machado de lâmina dupla(oxé); meteorito. • Suas plantas - folha de Xangô (comigo-ninguém-pode ), quiabo, cambará, sabugueiro. • Seu dia - Segunda-feira, Quarta-feira • Sua cor - Vermelho e Branco • Seu mineral - Aço • Seus elementos - Fogo. • Saudação - Cão Cabiecilê! • Domínios - O fogo celeste: raio, trovão, meteorito. • Comidas - Amalá, rabada, zorô, bobó, milho assado. Fruta de conde. • Animais - Jabuti • Quizilas - Doença e Morte • Características - autoritário, severo, justiceiro, líder maduro; egocêntrico, mandão. • O que faz - Corrige injustiças, protege contra catástrofes. • Riscos de saúde - Hipertensão e suas conseqüências; nevralgias e tensão.
Arquétipo dos filhos - São pessoas voluntariosas e enérgicas, altivas e conscientes de sua importância real ou suposta. Das pes soas que podem ser grandes senhores, corteses, mas que não toleram a menor contradição, e, nesses sensí veis ao charme do sexo oposto e que conduzem com tato e encanto no decurso das reuniões sociais, mas que podem perder o controle e ultrapassar os limites da decência. Enfim, o arquétipo de Xangô é aquele das pessoas que possuem um elevado sentido da própria dignidade e das suas obrigações, o que as leva a se comportarem com um misto de severidade e benevolência, segundo o humor do momento, mas sabendo guardar, geralmente, um profundo e constante sentimento de justiça".

A lenda de oxum


Diz o mito que Oxum era a mais bela e amada filha de Oxalá. Dona de beleza e meiguice sem iguais, a todos seduzia pela graça e inteligência. Oxum era também extremamente curiosa e apaixonada. E quando certa vez se apaixonou por um dos orixás, quis aprender com Orunmilá, o melhor amigo de seu pai, a ver o futuro. Como o cargo de oluô (dono do segredo) não podia ser ocupado por uma mulher, Orunmilá, já velho, recusou-se a ensinar o que sabia a Oxum.

Oxum então seduziu Exu, que não pôde resistir ao encanto de sua beleza e pediu-lhe roubasse o jogo de ikin (cascas de coco de dendezeiro) de Orunmilá. Para assegurar seu empreendimento Oxum partiu para a floresta em busca das Iyami Oshorongá, as perigosas feiticeiras africanas, a fim pedir também a elas que a ensinassem a ver o futuro. Como as Iyami desejavam provocar Exu há tempos, não ensinaram Oxum a ver o futuro, pois sabiam que Exu já havia roubado os segredos de Orunmilá, mas a fazer inúmeros feitiços em troca de que a cada um deles elas recebessem sua parte.

Tendo Exu conseguido roubar os segredos de Orunmilá, o Deus da adivinhação se viu obrigado a partilhar com Oxum os segredos do oráculo e lhe entregou os 16 búzios com que até hoje as mulheres jogam. Oxum representa, assim a sabedoria e o poder feminino.

Em agradecimento a Exu, Oxum deu a Exu a honra de ser o primeiro orixá a ser louvado no jogo de búzios, e entrega a eles suas palavras para que as traga aos sacerdotes. Assim, Oxum é também a força da vidência feminina.

Mais tarde, Oxum encontrou Oxóssi na mata e apaixonou-se por ele. A água dos rios e floresta tiveram então um filho, chamado Logun-Edé, a criança mais linda, inteligente e rica que já existiu.

Apesar do seu amor por Oxóssi, numa das longas ausências destes Oxum foi seduzida pela beleza, os presentes (Oxum adora presentes) e o poder de Xangô, irmão de Oxóssi, rompendo sua união com o Deus da floresta e da caça. Como Xangô não aceitasse Logun-Edé em seu palácio, Oxum abandonou seu filho, usando como pretexto a curiosidade do menino, que um dia foi vê-la banhar-se no rio. Oxum pretendia abandoná-lo sozinho na floresta, mas o menino se esconde sob a saia de Iansã a Deusa dos raios que estava por perto. Oxum deu então seu filho a Iansã e partiu com Xangô tornando-se, a partir de então, sua esposa predileta e companheira cotidiana.

A lenda do menino dourado....

Na praia da joaquina nasceu o negro Itamar de Oxalá Obokún, filho de pescador, passou a infância brincando à beira mar. Ali, ele aprendeu com os pescadores mais velhos, tudo da pesca artesanal e dos segredos das ondas do mar, os caminhos das correntes marítimas, as marés altas e baixas. Assim botou toga, se fez doutor, senhor e mestre na arte de viver e sobreviver no mar.
Desde jovem amava aquelas águas, e foi com elas que aprendeu a dominá-las com arte, calma e perícia, Nos verões dos anos sessenta a pedido dos poucos moradores e veranistas que tinham casa no povoado, tornou-se o primeiro guarda-vidas daquela praia. Há hoje tão famosa praia internacional dos surfistas. E foi como guarda-vidas que ele ficou conhecido por seus feitos a socorrer os banhistas mais atrevidos. E desta maneira que seu nome virou lenda.
Corpo atlético, um belo exemplar da raça negra, o povo admirava vê-lo correndo pela praia, tinha certeza que ele era um anjo negro, que os orixás tinham posto á beira daquela praia para protege-los dos perigos das ondas do mar.
E numa noite de intenso calor passeando pela beira mar a caminho de casa, depois da saída de um baile, sentindo-se tonto, pensou.. isso é porque passei da conta nas bebidas, resolveu tomar um banho. Quando chegou nas dunas sentou e deixou o corpo cair e adormeceu, não se sabe por quanto tempo. Quando acordou foi com risadas de uma criança que brincava a beira do mar, levantou-se procurou de onde vinha aquelas risadinhas.
Na escuridão da noite tendo a iluminar o brilho da estrela Dalva, ele viu um menino dos seus 7 anos correndo para dentro do mar, pele branca, cabelos longos encaracolados e loiros davam destaque á criança e a felicidade com que ele brincava bloquearam a decisão de ir ao seu encontro. Voltou a sentar na areia e ficou por um breve momento admirando as travessuras do menino.
Pensou em voltar a dormir, precisava descansar e aproveitar a brisa que vinha do mar, refez suas forças, para no passo seguinte entrar na água tomar um banho revigorante antes de voltar para casa. Sabia que sua mãezinha é quem abriria a porta e qualquer diferença em seu semblante seria motivo de uma bela reprimenda; Preciso descansar, tomar um banho antes de chegar em casa, foi o que pensou; Quando ele viu o menino adentrar ao mar. Meu Deus! quem será que está com essa criança, mais que irresponsabilidade! levantou-se e correu na direção do menino queria impedi-lo de ir ao encontro das águas, e quanto mais corria, mais distante ele ficava. Meus Deus! Meu Pai Oxalá, não vou chegar a tempo e com isso imprimiu mais velocidade parecendo que seus pés não tocavam o chão, e o menino continuava na louca disparada fugindo e rindo cada vez mais, quer parecer que agora a fuga era o motivo de tanta algazarra.
Pensou: Mas que moleque atrevido, se conseguir pega-lo vou aplicar umas belas palmadas naquele traseiro. E no instante seguinte o menino esta cada vez, olhando o negro Itamar nos olhos e apontando com o dedinho indicador para dentro do mar. Falou: Deixe me ir ter com minha mãe.
Aquilo deixou o negro Itamar estarrecido: mas, como esta mãe irresponsável entrou no mar e deixou o filho brincando aqui na praia. E foi devagarzinho cercando o menino tinha medo de assustá-lo e terminar por perdê-lo, queria tê-lo nos braços, mas, receoso de encontrar resistência. Mas, ao contrário do que ele pensava, a criança não ofereceu resistência, estendeu os bracinhos e aceitou de bom grado o colo do negro Itamar. Tendo a criança em seus braços, ele pensou: Mas, aonde foi para a infeliz desta mãe descuidada? tenho que procurá-la para entregar o menino e voltar para casa. Foi quando o tempo mudou e uma ventania violenta, surgiu do nada e as ondas do mar ficaram bravias.
E agora? o que fazer? ir pra onde?
A criança parecia desconhecer o temporal, continuava brincando e sorrindo, tendo a sua frente os olhos amedrontados do negro Itamar. A chuva fina e fria congelou o corpo do menino. Itamar resolveu envolver o menino nu em um blazer que trazia amarrado na cintura. O menino não aceita o contato da roupa com a sua pele. esquiva-se e se põe de pé e core para o mar. Bem, agora isso passou dos limites, tenho que dar um basta nas travessuras deste moleque, Saí em louca disparada ao encalce deste moleque, mas, quando mais corria, mais o menino de afastava, tinha asas nos pés.
O corpo miúdo desapareceu nas ondas do mar, as espumas que transbordavam impediam de localizar onde estava o corpo do menino, naquela mistura de ância e medo uma coisa o punha louco, eram as pequenas risadas do garoto parecia que debochava de sua habilidade de nadar. Agora aquilo quer era um salvamento, tornou-se uma disputa.
O vento, as ondas do mar, o corpo cansado da noite mal dormida, tudo era contra suas forças e aquilo foi se tornando difícil de manobrar, sua decisão era nadar para a praia em buscar de salvar agora a sua própria vida. Mas ele tinha fibra, suas forças foram forjadas dentro daquelas ondas, não desistiria tão fácil e a luta contra as ondas o afastaram da beira da praia, agora não enxergava mais nada e perdera o sentido de direção. Pensava, tenho que voltar, tenho que chegar a praia.
O corpo moído pela força despendida, a mente confusa, a alma magoada pela perda foi o que restou em seus pensamentos quando o corpo caiu a beira mar e ali adormeceu. Ao acordar com sol a pino queimando sua pele tendo como recepcionistas pequenas gaivotas que perambularam em busca dos mariscos que as ondas traziam do fundo do mar.
O tempo passou e sempre que alguém o elogiava pela bravura de ter salvado alguém de morrer afogado naquela praia, ouvia dele esta pequena história que sem pé e sem cabeça, que ele distraidamente contava. Sim o sentimento de culpa de haver perdido um menino para o mar. Talvez fosse um método de fugir dos elogios dos bajuladores que o consideravam um nadador imbatível.
Quando o conheci ele já passava dos 50 anos, já não estava no mar, dedicava-se a caminhar nos fins de tarde ou no cair da noite, horas a fios pela praia em busca do que todos ficamos sabendo mais tarde, o sonho acalentado de um dia encontrar o MENINO DOURADO...
E foi no verão de 62 que saímos para pescar, ele me conta das histórias do seu menino loiro que seguidamente aparecia, ora em sonhos, ora no anoitecer, ou no amanhecer, sempre em busca de sua mãe. Ouvi aquela história e calei, não alimentava tal absurdo.
Naquela noite resolvemos dormir ao relento da praia a depois de montar o acampamento preparamos a janta e ficamos de conversa até a madrugada, foi quando ele me pergunta se eu não tinha curiosidade de ver o MENINO DOURADO. Respondi secamente: Itamar meu querido amigo, de lendas, imaginações e visionários o batuque está cheio, gosto de mitologia dos orixás, mas, me afasto de aparições, isso é coisa de gente espiritada. Expus minha opinião, e vi que aquilo não caiu bem, notei uma certa tristeza em seu olhar e o semblante anterior de alegria deu lugar a tristeza, por eu não aceitar o convite, de ver seu MENINO DOURADO. Fez um muxoxo e saiu a caminhar pela praia desanimado ao ouvir minha negativa. Fazer o que? esta é minha opinião e não pretendia mudar. Até aquela data. Recolhemos as linhas e terminou a pescaria voltando para casa.
Semana seguinte, como de costume voltamos a nos encontrar e fomos com um barco em direção ao mar, pretendíamos acampar em uma ilha próxima e ali pescar as corvinas e tainhas. Chegamos e a cortina da noite se fechou sobre nossas cabeças, tanto que o frio da noite impedia de pescarmos, resolvemos dormir. De madrugada voltaríamos a por as linhas na água.
E naquele sono restaurador pelo cansaço despendido de horas de remo caí em um sono profundo. Foi lá pelas tantas da madrugada que acordei e vi o negro Itamar sentado a beira do fogo cozinhando algum alimento, como estava com fome resolvi levantar e participar do que seria o lanche que ele preparava. Para minha surpresa escutei vozes e pensei este nego está louco, deu pra falar sozinho. Calei. fui passo a passo caminhando em sua direção, pretendia escutar o que falava para depois fazer troça de tudo que ouvira.
Pra minha maior surpresa que vi com estes olhos que a terra a de comer, que ele tinha um menino em seu colo, bem acomodado e rindo de tudo que o negro falava.
Fiquei a distância olhando e escutando tudo que aqueles dois conversavam, muito não posso dizer, pois, a mim não pertence, e devo me manter calado sob pena de parecer louco ou espiritado, mas, vamos ao diálogo que ouvi e posso relatar:
O que comiam era um prato de canjica branca com coco, uma massa branca e adocicada que a mãe do Itamar prepara a cada vez que ele ia ao mar, diz que isso era pra dar sorte, não sei onde estava a tal sorte pois nunca pescávamos nada.
A conversa do velho negro e da criança girava em torno de uma suposta viagem e as perguntas do velho Itamar eram sobre como era lá em ÒRÚN se havia peixe e fartura, se era bom e se tinha festa, a cada pergunta o menino ria e no meio da risada a resposta era uma só: Consinca, Cosinca, sei eu o que siguinifica cosinca, devia ser uma afirmação ou confirmação de perguntas. O negro Itamar com paciência e ternura alimentava o menino segurando a tigela da canjica com uma mão e a outra levava os punhados direto a boca da criança que saboreava com apreço e agrado.
Quando terminaram de comer, eles levantaram-se e foi quando ouvi o menino falar ao Itamar:
-Venha minha mãe está nos esperando, venha, vamos depressa.
O negro levantou-se e deu a mão a criança que o conduzia direto ao mar, passando por mim como se eu não existisse, seguindo mar a dentro, até desaparecerem, não sem antes se voltarem e abanarem como se aquilo fosse uma despedida final.
Sim ali estava o MENINO DOURADO, aquele da lenda que prometera que um dia viria busca-lo, negro Itamar não partiria sozinho em sua última jornada em busca de sua morada no céu, seria conduzido ao ÒRÚN por seu orixá, OXALÁ OBOKÚN, o seu MENINO DOURADO...

JOÃO CARLOS DE ODÉ (Póstuma)

26.4.13

Òòsàálá e Esú

sexta-feira vamos louvar o funfun ....
Como Òòsàálá Aprendeu a Produzir a Cor Branca
Certa vez, quando os orixás estavam reunidos, Òòsàálá deu um tapa em Esú e o jogou no chão todo machucado; mas no mesmo instante Esú se levantou, já curado. Então Òòsàálá bateu em sua cabeça e Esú ficou anão; mas se sacudiu e voltou ao normal. Depois Òòsàálá sacudiu a cabeça de Esú e ela ficou e...norme; mas Esú esfregou a cabeça com as mãos e ela ficou normal. A luta continuou, até que Esú tirou da própria cabeça uma cabacinha; dela saiu uma fumaça branca que tirou as cores de Òòsàálá. Òòsàálá se esfregou, como Esú fizera, mas não voltou ao normal; então, tirou da cabeça o próprio axé e soprou-o sobre Esú, que ficou dócil e lhe entregou a cabaça, que Òòsàálá usa para fazer os brancos.

12.11.12

agenda aberta para toques de fim de ano (Nação)
( mesas ,quinzenas, ebós..)
contato- marcos.regional@gmail.com ou 51-986224434

8.8.12

TRIBUTO AOS HOMENS DO TAMBOR "o canto e o som do batuque"


                                                                                    (texto transcrito , João Carlos D`eodé )

Em toda a minha vida religiosa conheci um cem número de Tamboreiros, cada um com suas particularidades, características e personalidade.Posso citar alguns nomes, mas tenho medo de pecar no esquecimento de outros tantos que fizeram nome e tornaram-se verdadeiras lendas.Para isso vou usar de um critério que penso me tornará imunes as criticas, ou seja, a de citar unicamente os que eu vi e ouvi tocar e cantar.Sempre existira os que não vi, e não conheci, mas vou me restringir aos que tocaram em minha época e dentro do que eu denomino: A Grande Porto Alegre, (Viamão, Novo Hamburgo, Canoas, São Leopoldo, Sapucaia, Cachoeirinha e adjacências).Entre os Tamboreiros, existe aquele que ficaram para história, cada um em sua época, definiram e regeram tudo que existe de belo dentro do canto e toque do Batuque. Para estes devia existir uma placa de honra ao mérito pelo tudo que eles fizeram pelo Batuque.Ali no Partenon conheci um tamboreiro de nome Borel, que fez escola para tudo que existe dos anos cinqüenta aos anos setenta. Poderia ter havido mais perfeição no canto, nas pancadas que evocam os Orixás, mas as mãos e a voz daquele homem superaram tudo que existiu de mais divino dentro do canto das rezas. Na época eu era um Buri dos anos sessenta e que eu tive a felicidade de me iniciar vendo ele tocar. Um nome que alguém dificilmente esqueceria era do seu Tesourinha, tive a felicidade de participar da festa dos setenta e cinco anos de feitura de seu Orixá Ogum e ser agraciado com seu axé.Nesta ocasião ele morava em Florianópolis e nesta ocasião já de idade avançada, com inúmeros problemas de saúde, e pela diabete estava cego, ao me aproximar e bater cabeça e receber o abraço do pai Ogum, este passou a mãos em meu rosto e me reconhecendo disse-me: “Deodé não tenha medo eu estarei sempre contigo”.O Tamboreiro Oficial da casa de minha mãe Miguela de Bará Agelú chamava-se Micharia, trabalhava na Prefeitura de Porto Alegre. Com ele viajei para Santo Ângelo para inúmeros Batuques em casa de mãe Lilá de Bará lodê.Um dos mais antigos era o nego Zé, filho carnal de mãe Chininha de Yansã, tocou ali no Partenon e deixou muitos alunos de sua escola, era dos poucos que tirava as rezas para o lado do Oió. O Tamboreiro oficial de meu irmão Gelson de Bará Lodê era o negro Tadeu, tornou-se Tamboreiro de mãe Eva de Oxum, naquela casa tocou por vários anos.Um dos mais destacados do Partenon era o Cláudio Barulho, este inclusive fez nome como puxador de samba no Carnaval Porto-alegrense.Carlos de Ogum esposo de Lurdes de Oxum é um nome a se destacar e seus filhos também fizeram escola em Viamão.Aguardamos com uma certa ansiedade os nomes do novo milênio.
Dentro do que era o toque ritualístico o qual eu passo a chamar: “o som do batuque”, dos anos sessenta existia uma maneira de tocar, mas no começo dos anos setenta começou as inúmeras transformações que se não modificaram o essencial dos fundamentos escancaradamente uma energia e performance diferente de tudo que até então se ouvia do som do Batuque.
Não estou falando dos toques (queflê, agueré, odan, locori, tamborinete), não, nada disso modificou, o que modificou a partir dos anos setenta, parece que as pessoas esqueceram, foi à força do toque, a pancada, a batida que chegou com mais força, mais energia.
Não quero ser injusto ao citar o nome de quem começou as modificações, mas para mim que sempre estive observando e estudando o som do batuque, e os grandes mestres do toque e do canto, o grande mentor destas transformações foi o Tamboreiro Carlinhos. 


Sim, era este o nome da fera, aquele menino tocava com uma energia nunca vista, com uma força descomunal, e o mais importante com um largo sorriso estampado naquela enorme boca, a escancarar de orelha a orelha tudo de sua felicidade e satisfação pelo trabalho que executava, se é que ele considerava trabalho tocar para evocar os Orixás. 
O Carlinhos era um belo exemplar da raça negra, corpo atlético, mais parecendo um atleta do Box, braços fortes e mãos de dedos longos, 1.85 cm, tudo nele representava força e energia. 
Tudo me leva a crer que os Orixás haviam moldado aquele tipo físico só para tocar para eles.
Fui num Batuque só para vê-lo tocar, seu nome já era uma lenda viva e para minha surpresa vi ele colocar o tambor no meio das pernas e com uma pequena corda em volta da cintura amarrar para melhor fixar o tambor, para no gesto seguinte dar umas pequenas pancadas em toda a borda do tambor e a seguir pedir agô e despencar a madeira, e põe madeira nisso. Mas ba tchê que cosa de loco.
Eu que nunca tinha participado de uma festa tocada por ele sai dali com o lombo arrepiado de tanta vibração e emoção. 
A partir daquela noite fiquei com certeza que o toque do Batuque nunca mais seria o mesmo, tínhamos avançado uma etapa e as modificações tinham chegado para ficar. 
O toque do Batuque teria mais força e energia.
Até aquela data ninguém se atreveria a por o tambor no meio das pernas e amarrar na cintura, todos tamboreiros tocavam com o tambor deitado sobre uma toalha em cima dos joelhos ou embaixo do braço.
Para mim nunca em tempo algum alguém vai ocupar seu lugar, tanto que os Orixás ouvindo tanta beleza, amor e devoção o chamaram bem cedo para ir morar no Orun, não podiam esperar para vê-lo tocar somente aos sábados, queriam ouvi-lo todos os dias, e lá se foi o Carlinhos de Oxum tocar somente para os Orixás.
Existem vários estudiosos deste assunto com livros publicados, faço questão de citar o professor Braga com o seu magistral livro (nome do livro) que trouxe uma riqueza imensa contribuindo para o verdadeiro conhecimento dos Fundamentos do toque dentro do Batuque, pena que nossos Tamboreiros não leiam. 
Existe uma particularidade que devemos destacar em respeito aos tamboreiros mais antigos, cada um procurava conhecer mais profundamente o toque e o canto dos Axés (rezas) de seu lado (nação) Ijexá, Cabinda, Oió, Jeje com Ijexá. Muitos deles negava-se terminantemente tocar para outro lado (nação), que não fosse de seu conhecimento.
Hoje em sua maioria toca uma mistura de som e canto pouco identificável, o que minha vó Jovita vaticinou há trinta anos atrás: “se este meninos não estudarem as rezas um dia o som e o canto do Batuque será uma doce salada de frutas”. No que ela mais uma vez acertou!
Cada tamboreiro criou seu próprio repertorio, não obedecendo ao critério principal que é a seqüências das rezas e o lado que a identificara perante os participantes.
Tem os que têm a cara de pau de perguntar a que horas o dono da casa quer que termine a festa? Ora... Bolas à festa têm que terminar a hora que tirar a ultima reza para Oxalá. Independente disto à maioria desconhecem o repertório e a seqüência das rezas. E é um tal de comer rezas, suprir algumas, talvez pela dificuldade de canta-las ou por erros na pronuncia e sonância mais difícil, mastigar algumas, enrolar muitas tantas.
Um critério que a maioria malandramente tomou por habito é cantar o que o povo canta, ou seja, se cantar uma reza e não tiver resposta, passa batido e salta para outra. Como a maioria das rezas o povo desconhece e quer me parecer tem preguiça e vergonha de cantar errado, terminam por não responder, resultado: o canto do Batuque termina por sair picotado. Tem-se a nítida imprensam que faltou alguma coisa e terminamos por sair frustrado de muitas festas. Falha imperdoável.
Fico impressionado com a cara de pau de alguns ainda esperarem elogios.
Todo pai de santo sempre se acha melhor que os outros, mas caso dos tamboreiros atuais, esta característica e acentuada. Todos, sem exceção, se sentem melhores que os mais antigos. Ai é dose ter que agüentar estes estrelatos.
O som do Batuque virou um grande comércio, por cinco salários mínimos, é o cachêzinho que a maioria dos tamboreiros cobra nos dias atuais, pode se dar o luxo de escolher quem se quer para tocar nossas festas de Batuque.
Com exigências que extrapola as raias do ridículo, (passagens de avião, hospedagens em hotel cinco estrelas, pagamento via doc. do Banco do Brasil, pagamento de um auxiliar) com abuso que fariam minha vó matar um desgraçado destes com feitiço. O que se vê e que o tamboreiro quer ser mais importante que o que o pai de santo.
O pessoal do interior é o que mais sofre.
Tens uns que quando vão tocar no interior levam a amante e se hospedam em bom hotel, isto significa que o Batuque vai terminar mais cedo, pois ele invariavelmente tem pressa de retornar ao hotel.
Mas tem uma raça desgraçada que para falar nestes, vou abrir um parêntese novo. São os que se ocupam (recebem Orixá). Bem, estes são de doer ter que suportá-los, pois estes infelizes recebem estas coisas nas aspas para dizer bobagem para os filhos de santo da casa onde teve o desprazer de tê-los como tamboreiro. Falando um monte de asneiras e confirmando cabeças e citando fundamentos como quem dá receita de bolo, ensinando feitiços, por ai segue a ladainhas destas porcarias, que no fim a pessoa que os contratou se arrepende.
Lembro-me bem de um fato pitoresco que aconteceu na casa de minha avó que passo a relatar. Em principio minha vó odiava tamboreiro que recebesse santo (ocupar-se). Dizia ela: Tamboreiro é tamboreiro, pai de santo é pai de santo, o resto é pura invenção de quem quer aparecer.
Mesmo sabendo de antemão que a vó não gostava destas elucubrações, o Orixá de um tamboreiro, tinha o mal habito de no meio do Batuque chegar e entrega o tambor para um secretario e se punha a dançar. A pobre da vó enlouquecia, mas fazer o que? Dependia daquele infeliz, tinha que agüentar. Mas a coisa foi ficando difícil de suportar.
Até que uma noite de festa grande ela não agüentou mais e me chamando dize: “Deodé, vai lá no meio do salão e me traga o Bará do tamboreiro”. Fui com tudo e pegando pela mão do Orixá convidei-o a ir até a cozinha, onde a vó estava a nós esperar. A vó então falou: meu paizinho eu estou com a casa cheia de visitas e o senhor chegou e entregou o tambor a um menino que esta estragando minha festa, a responsabilidade é do seu filho.O Bará metido a besta quis dar o ar na negra velha, citanda alguns fundamentos.
-Dona Jovita eu não poderia deixar de me fazer presente em tão rica oportunidade, minha chegada é a confirmação de sua obrigação.
Deu! A negra enlouqueceu e subiu nas tamancas.
O que! Eu Jovita de Xangô cem anos de Batuque precisar da chegada de um Bará Lodê na cabeça de um tamboreiro para confirmar os meus fundamentos. O que faço ou não faço em minha casa, só a mim diz respeito, mas era só o que me faltava, mas isso é uma pouca vergonha, mas a que ponto a gente chegou, por meu pai Xangô, mas me desculpe, mas tenho que tomar uma atitude.
E foi pra já, a negra velha deu de mão na gola da camisa do infeliz e proferiu a sentença final.
-O senhor ponha-se para a rua, e me devolva o sem-vergonha do seu filho, porque eu paguei, e olha que paguei bem caro para ele tocar. Este infeliz vai entregar minha obrigação nem que eu tenha que dar uma surra de rabo de tatu nele, este desgraçado tem que ter responsabilidade com seus compromissos, e de mais a mais eu não lhe convidei para dançar e ponha já da minha frente se não vai sobrar para o senhor também.
O Bará do negrão foi-se inteiro não quis entrar em achêro. Com a maior cara deslavada do mundo voltou a tocar. Só que desta vez o som e o canto tinham melhor qualidade.
Para eximir qualquer duvida minha avó Jovita de Xangô tinha dependurado na porta do quarto de santo um relho rabo de tatu. Perguntada a razão ela fazia a questão de responder: “Isso é para amansar burro chucro e tamboreiro que se faz de louco”: E um conselho que minha vó não cansava de dar a seus tamboreiros: “Onde se ganha o pão, não se come à carne e quem toca para exu não toca para orixá”.Para boa entendedora meia palavra basta e um pingo é letra.
Já era tempo dos atuais pais de santo terem a porta de seus quartos de santos um rabo de tatu. Assim teremos certeza que se não melhorar o som do Batuque pelo menos trará mais dignidade e respeito à profissão de tamboreiro.